A conscientização para os direitos das mulheres e a luta contra o discurso de ódio, especialmente no âmbito do desporto, não se pode cingir a uma publicação no instagram com a música que está no “hype” no fundo a criticar aquela publicidade considerada por muitos infeliz, protagonizada pela atriz Sydney Sweeney. Acredito que esta publicidade ou tantas outras provoquem algum alvoroço em quem acredita que o desporto, no feminino, deve ser mais valorizado. Mas não se pode cingir a um post no instagram, a uma republicação nem a um like. Tem de ir muito para além disso.
O intuito de chamar a atenção para esse problema tão atual não pode ser denegrir a imagem de uma mulher. Nunca poderá ser denegrir outra mulher, mesmo quando esta se denigre a si mesma ao utilizar a sua imagem, beleza e atributos físicos a seu favor.
O intuito é sim conscientizar as pessoas, especialmente os jovens, estes curiosamente são os que deveriam sentir na pele as consequências dos atos do presente no seu futuro, no futuro das suas filhas e no futuro de todas as crianças em geral. Seria suposto deixarmos um mundo mais civilizado, mais humano, com menos preconceito e discurso de ódio.
A eterna corrida de obstáculos continua a partir do momento que temos de explicar com toda a clareza algo simples. A questão das mulheres no desporto não devia ser uma questão. Devia ser motivo de orgulho. Devia ser algo que fosse valorizado da mesma maneira que o desporto masculino. Temos sempre de explicar com toda a clareza que ser mulher e querer ser reconhecida no desporto não significa e principalmente nunca se traduz em querer pegar em tantos kg quanto um homem, a querer ser tão veloz quanto um homem, a querer ser “tanto quanto um homem”; mas sim querer ver mulheres extraordinárias na sua modalidade a serem reconhecidas pela sua aptidão física. Querer ver modalidades femininas a ter o mesmo apoio por parte dos clubes que as modalidades masculinas. Querer ver as meninas mais pequeninas entusiasmadas por começarem um novo desporto ou a encontrar o desporto que amam, sem se sentirem menos reconhecidas do que os rapazes da mesma idade. É querer que toda a gente se sinta reconhecido sem distinção de género. Na realidade, ninguém “quer ir contra” os homens, ao contrário do que muita gente possa pensar (sendo isto também algo simples de explicar mas pelos vistos difícil de compreender).
Estamos numa época em que não se pode ficar quieto a observar o que se passa e assobiar para o lado. É preciso agir e principalmente é preciso FALAR. É preciso tentar dar a entender, quer no café, quer na escola, quer numa conversa entre amigos, seja onde for, que o desporto feminino tem de ser valorizado.
Até a nível local é palpável a diferença. Basta refletir um pouco e começam os exemplos a passarem pela nossa mente.
Passamos a vida a ouvir e a dizer que o desporto é uma forma de crescer enquanto pessoa, que faz maravilhas ao corpo e à mente, mas esquecemo-nos de que talvez há alguma rapariga que saiu do desporto que amava porque não se sentia valorizada. Há alguma rapariga, algures, que queria seguir carreira profissional num desporto e não conseguiu, não por falta de capacidades, mas por falta de apoio.
A verdade é que o apoio ao desporto no geral, seja feminino ou masculino, infelizmente nos dias de hoje é escasso, mas se no desporto masculino este é escasso, no desporto feminino roça o nulo.
Este apelo é à reflexão e à empatia. Duas facetas da inteligência racional e emocional humana que estão muito miúdinhas nos dias de hoje. É preciso acordar.
É preciso mexer, não só o corpo mas também a mente.
Maria Costa
JS Santa Maria
